Teeth – A Vagina Dentada
Mitchell Lichtenstein opõe, em Teeth – A Vagina Dentada, duas forças tremendas. A inocência da protagonista portadora do órgão-título, Dawn (Jess Weixler), torna a fúria do roteiro um feito inimaginável. Não há resquícios dos encontros mais comuns entre criatura afável e corrupção bruta: linda garota destruída pela maldade, alheia à maldade ou salva da maldade. Aqui, a linda garota se livra da opressão por conta própria, em uma proposta também já conhecida – especialmente em finais-surpresa de fitas de terror vagabundas. O grande diferencial é como a ingenuidade de Dawn resiste até o último minuto de projeção, mesmo depois de ter embarcado em uma vendeta contra o irmão. Aqueles segundos de hesitação e choque perante o idoso que lhe deu carona, quando tudo indicava que os homens já haviam sido entendidos como intrinsecamente vis, fazem toda a diferença.
Melhores de 2011
Rapidamente, os melhores filmes que estrearam no Brasil em 2011 – e que eu vi [observação importante, uma vez que eu não vi muitos filmes. Obrigado, vida atarefada].
Contágio
Contágio me passou a impressão bastante específica de que eu acabara de ver um dos filmes que melhor trabalhou a narrativa dentro de uma proposta realista. Cientistas de fato elogiaram a produção de Steven Soderbergh pelo retrato fiel de operações científicas e procedimentais que seriam realizadas durante uma pandemia como a do vírus fictício MEV-1, mas a construção narrativa me parece o feito mais impressionante aqui.
Atividade Paranormal
Meu plano era pegar uma sessão de Atividade Paranormal 3 no cinema, para aproveitar os sustos. Para isso, consegui assistir aos dois primeiros filmes da série. E o plano foi por água abaixo por pura decepção. Duas produções de terror de baixíssima qualidade serviram de aviso. Atividade Paranormal 2 repete boa parte das inconsistências do anterior com um pouco menos de estupidez, então vou dar enfoque a Atividade Paranormal.
Rapidinhas
Interessante. Fosse lançado há alguns anos, Lanterna Verde provavelmente seria visto como um bom filme. Há apenas uma grande falha em sua narrativa – o tratamento ruim dado aos vilões –; de uma forma geral, o filme é correto. Não é um grande exemplar, mas não chega a comprometer. Entretanto, é difícil aceitar um filme apenas correto e sem qualquer adição ao gênero [se assim podem ser considerados os filmes de super-herói] depois que X-men 2, Homem-aranha 2, O cavaleiro das trevas e Os incríveis fizeram, cada um a seu modo, uma melhora significativa na estrutura básica dessas narrativas. Soa ingênuo e burocrático o arco de transformação de Hal Jordan em super-herói. Todo o começo do filme parece mais cumprimento de tabela do que de fato algo relevante a ser construído.
Lanterna Verde (Green Lantern, Martin Campbell – 2011) - **
Depois de sofrer as mais terríveis provações e ter sido acusado de pecador por seus amigos, Jó finalmente ouve a voz de Deus em meio de uma tempestade. A voz divina, após passar por quase todo o Livro de Jó ausente das discussões dos personagens, volta-se para o protagonista e mostra para o servo toda a imensidão do poder cósmico que Deus possui. É justamente um trecho desse discurso, dessa exposição, que abre A árvore da vida. O tom do discurso divino se concentra na pequenez do homem; na criação do universo, no desenrolar dos anos o homem não esteve presente, apenas Deus testemunhou todos os acontecimentos possíveis e impossíveis. Assim, Jó se humilha, reconhecendo que ao homem não cabe o conhecimento acerca da vida e da criação. A árvore da vida parece se voltar para a compreensão que o personagem de Sean Penn tem da criação: ela é possível de ser percebida pelo homem ao longo de sua vida, de sua passagem ínfima pelo planeta. Ínfima, mas resultante de milhões de anos de evolução. Afinal, se tudo foi criado pelo sagrado, a conclusão mais óbvia é que o sagrado é perceptível e palpável nas menores e aparentemente menos significativas coisas. Se por um lado o filme pode soar arrastado, por outro se apresenta desde o início como algo que não rejeita a possibilidade do sagrado em sua organização narrativa, o que, nos tempos cínicos de hoje, é no mínimo interessante.
A árvore da vida (The tree of life, Terrence Malick – 2011) – ****
Super 8 é um filme que emula com competência as produções dos anos 80 cujo status de clássico vem sendo forjado nos últimos anos [por motivos óbvios]. Há o clima de Os goonies que permeia as relações entre as crianças, mas há também o fato de o filme ser produto do agora. Assim, J. J. Abrams filma as explosões inevitáveis com uma câmera que lembra muito não os filmes de trinta, vinte anos atrás, mas aqueles do ano passado. Essa mescla de estilos resulta em um filme que sim, possui inúmeras cenas de ação com montagem dos anos 2000 mas também possui um intimismo sempre muito bem vindo. No final das contas, assim como Harry Potter, Super 8 é um filme de passagem, é um filme sobre o contínuo processo de amadurecimento de seu protagonista. E é justamente por esse motivo [a delicadeza com a qual o protagonista é encarado] que os defeitos em relação a outros personagens soam tão mal; o contraste é enorme. Mas Elle Fanning e Joe Courtney carregam com segurança todos os acontecimentos da narrativa.
Super 8 (Idem, J. J. Abrams – 2011) – ****
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II
Em 2004, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban realizou um salto de qualidade na adaptação dos livros de J. K. Rowling para o cinema. Depois de dois filmes absolutamente risíveis, Alfonso Cuarón fez de Azkaban mais do que simplesmente uma transposição burra que prezava a fidelidade dos acontecimentos [como fazia Chris Columbus]; o trabalho de Cuarón revelou algo que estava de alguma forma escamoteado no texto de Rowling. Em Azkaban importa menos a noção de “aventuras em um mundo mágico” e mais o rito de passagem que essas aventuras representam. Nesse filme, Harry finalmente se porta – e é tratado – como alguém que passa da infância para a adolescência durante certos acontecimentos de sua vida.
Desde então, quatro outros filmes foram feitos. Somente no último, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II volta-se a trabalhar Harry Potter como aquilo que é: um personagem. Uma pessoa. O protagonista. Em Parte II o rito de passagem consiste da transposição da adolescência para o mundo adulto. O mundo cruel, no qual amigos morrem porque é da natureza da vida. O mundo da responsabilidade de abraçar suas escolhas e consequências.
Kung Fu Panda 2
Em Kung Fu Panda 2, Po (Jack Black) já é um grande lutador de kung fu e é capaz de uma boa porção de “show-de-bolices”. (Achei bem simpática a saída dos tradutores para “awesomeness”). Por conta dessa mudança em relação ao filme anterior, a irreverência aqui muda de valor. Se antes, fazia sentido que Po reagisse com um cômico pasmo às doutrinas da arte marcial, aqui, ele está consideravelmente inteirado.
Meia-noite em Paris
Inúmeras imagens de Paris constituem a abertura de Meia-noite em Paris. Inúmeras imagens da cidade-luz. Da cidade do amor. De um dos mais inspirados lugares do mundo. O que Woody Allen faz com a cidade no filme, no entanto, é uma reflexão dupla: ao mesmo tempo que de fato mostra Paris de uma forma apaixonante, desconstrói as idealizações que o espectador pode ter sobre outros lugares/tempos que não seu próprio presente.
X-men
Quando eu era criança, minha atenção em relação aos super-heróis se voltava mais ao Homem-aranha e ao Batman. Posteriormente, quando comecei a entrar na adolescência, travei o primeiro contato com os X-men. Achei interessante o conceito de equipe [que me parecia um tanto diferente d’Os vingadores], os vilões, os personagens. Na verdade, à epoca as coisas se dividiam, para mim, entre divertidas ou não divertidas. Nos últimos cinco anos comecei a caçar as publicações na internet e acabei baixando boa parte da narrativa dos X-men. Li desde a volta das Guerras Secretas, passando pelo Massacre de Mutantes e Inferno até o surgimento de Cassandra Nova e a morte de Jean Grey causada por Magneto. E digo: os X-men são meus heróis favoritos.
Bastardos Inglórios
Pobre Coronel Hans Landa. Pensava ele estar inserido na Segunda Guerra Mundial que se conhece hoje em dia, algo relativamente próximo do que se sabia à época. Ele poderia não ser um dos grandes líderes, mas possuía intelecto avantajado o bastante para bolar um plano que traria o fim da guerra e benefícios para si próprio. Entre suas outras provas caricatas de intelecto, o gosto pela prolixidade, a fluência em mais de duas línguas, o racionalismo impecável, a calma e a lucidez. Porém, ele se engana ao apregoar algo que considera essencial: a capacidade de se colocar no lugar de um judeu despido de toda dignidade para sobreviver. Ele definitivamente não consegue se colocar como vítima.




