É muito difícil comentar algo tão rico, sincero e visceral, mas também seria um crime não arriscar algumas palavras para uma das interpretações mais contundentes do último par de anos. O que Max Records alcança no filme de Spike Jonze é extremamente natural, aspecto importante em interpretações de crianças, que podem cair facilmente na recitação trôpega dos diálogos ou numa aparente maturidade um tanto disparatada. Onde vivem os monstros é exatamente sobre maturidade e sobre controle, então esses dois elementos devem ser introduzidos com muita parcimônia no filme.
O jovem ator se entrega à bagunça e à diversão infantil com gosto, deixando o possível amadurecimento longe de vista e agregando tudo que acha interessante (fortalezas, robôs, monstros, guerras, dominação, destruição) com euforia contagiante. A noção de controle já está contida desde o começo, pois o Rei Max decreta a diversão e as insanas aventuras para os monstros, e quanto mais a responsabilidade se agiganta no tocante a outras pessoas, mais pode-se ver o jovem maduro saindo da casca. Não que o processo seja escancarado: o garoto encara os problemas provenientes de seu reinado com pura tristeza, como se tivesse quebrado seu brinquedo preferido de tanto brincar com ele.
Aí pode-se perceber a habilidade do roteiro, que alia a estranheza dos conflitos dos monstros com certa inevitabilidade, como se tudo estivesse fadado a acontecer daquela maneira. Não é algo exatamente lógico e fluido (Carol reclama que KW pisou na sua cabeça, e ela se sente mal quando ele não quer fazer o mesmo), mas isso reforça a necessidade de haver alguma mudança no modo de vida de todos – tudo no mundo fantasioso se desdobra para que a conclusão seja aquela. O processo de amadurecimento, assim, se torna orgânico e inevitável no contexto onírico, para que faça sentido na cabeça de uma criança que não é capaz de abarcar mentalmente o mundo real em que vive.
O final pode até ser triste, mas é de uma naturalidade tão grande que não há o que lamentar, exatamente. A superação (ou expiração) de uma fase dá lugar a outra, e é nisso que o filme se foca, na passagem e no intrincado caminho que uma criança tem de fazer para alcançar o próximo estágio. Na atuação de Records pode ser vista toda a jornada, o avanço em torno (e não em linha reta, através) da vida, pois ele se apóia em uma infantilidade genuína para caminhar em direção à maturidade plena, em total coerência com a proposta da obra.
(Where the wild things are, 2009, EUA. Dir.: Spike Jonze. 101 minutos.)







