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Tudo pode dar certo

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Não sou – e duvido que queira ser – especialista em Woody Allen. A bem da verdade, acho estranho que todos digam que o Allen cômico é melhor que o dramático, já que os melhores filmes que vi do diretor são justamente os dramas (a saber, A rosa púrpura do Cairo e Match point). Isto posto, devo dizer que seu filme mais recente a estrear no Brasil, Tudo pode dar certo é realmente muito bom.

O filme tem como protagonista Boris, um misantropo que após seguir à risca suas concepções de mundo, passa de um ‘quase indicado ao Nobel de Física’ para um rabugento professor de xadrez para crianças. Sua máxima é ‘whatever works’: o que der certo é satisfatório e é assim que se deve viver. Em determinado dia, uma adolescente sulista chamada Melody pede abrigo por uma noite – que se estende por vários meses. Desse acontecimento nasce uma relação até certo ponto esperada, mas desconstruída.

Seria normal e esperado que Melody, com sua inocência e ignorância imensas, mudasse o ponto de vista de Boris (lembra-se de Up? Então…). No entanto, Allen inverte a situação e é a menina que passa a ser influenciada pela visão de mundo do ex-professor, se tornando um poço de dúvidas existenciais nem sempre bem compreendidas.

É fato que o diretor/roteirista se vale de exageros em todos os lados: Boris é absurdo em suas considerações e, por isso mesmo, não necessariamente desagradável. Melody, sua mãe e seu pai, sulistas típicos. Esses exageros, no entanto, são necessários para a desconstrução dos personagens que será feita ao longo do filme. O arco dramático é feito de forma direta, como no caso do pai e da mãe de Melody ou de forma sutil, como no caso de Boris. Aliás, essa transformação é tão sutil que o personagem não deixa de ser rabugento ou mesmo acreditar no acaso do universo, na inevitabilidade do fim, da efemeridade da vida. A mudança de Boris se dá em outro aspecto, que é visto por sua relação com o ‘whatever works’. Se no início ele vive com o satisfatório – que é o minimamente garantido –, no final do filme, o personagem revê justamente esse acaso universal e efemeridade das relações; sob essas circunstâncias, aquilo que pode ser feito para aplacar tais elementos inevitáveis é válido. Assim, uma improvável relação amorosa, uma libertação moral/intelectual são as armas com as quais os personagens fazem de suas vidas algo mais feliz. Para Boris, a felicidade é momentânea? Sim. É inevitável que tudo chegue ao fim? Também. Se o fim é inevitável, então que façamos o necessário para vivermos bem o que se pode viver.

Aliado a quebras da ilusão de representação da realidade e a boas atuações (Larry David e Evan Rachel Wood e, no caso de Patricia Clarkson, uma ótima atuação), o filme se revela não leve como uma comédia qualquer nota, mas intenso como somente grandes filmes podem ser.

Tudo pode dar certo (Whatever works, Woody Allen – 2009) – *****

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