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Cisne negro

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Volta e meia são feitos filmes que se apegam radicalmente a seus personagens. Percebe-se em tais filmes que o foco não acontece somente no plano do roteiro, dos acontecimentos da narrativa, mas também – principalmente, algumas vezes – em relação à câmera. Muitas vezes seu trabalho  não é realizado somente para seguir o personagem, mas mergulha radicalmente em seu mundo e dá ao espectador a materialização da mente daquele ser.  Esse recurso pode ser observado em Sangue negro e Desejo e reparação, para dar dois exemplos recentes. Darren Aronofsky, diretor de longas desde 1998, sempre flertou com essa possibilidade [principalmente em Pi e Réquiem para um sonho], mas nunca antes havia de fato utilizado tamanha intensidade para abordar um personagem. Até Cisne negro.

timky-blackswan-dvdscr.avi_000155739 O filme segue Nina Sayers, bailarina de uma companhia que após anos de dedicação e sacrifícios finalmente tem a chance de brilhar ao protagonizar O lago dos cisnes. Essa produção tem dois papéis principais, Odette – o cisne branco, a donzela, virginal, pura – e Odile – o cisne negro luxuriante, sedutor. Os dois papéis são dançados pela mesma bailarina e é esse o ponto que traz empecilhos à Nina. A personagem, obcecada com a técnica e com a perfeição, não consegue soltar-se o suficiente para dançar o cisne negro.

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O roteiro de Cisne negro é totalmente centrado em Nina e em sua desintegração físico-psicológica [um oi dado a Cronenberg]. A personagem só faz viver em ambientes absurdamente disciplinados e repressores. A companhia de balé é impiedosa em relação aos bailarinos, em relação aos sacrifícios físicos necessários. A mãe de Nina [uma Barbara Hershey horripilante] a reprime e infantiliza, talvez fruto da própria carreira interrompida. A bailarina, então, é toda contenção, delicadeza e infantilidade. Nina, ao começo do filme, já está obcecada: seu sonho com uma coreografia d’O lago dos cisnes demonstra isso. O que, de fato, irá fazer todo o auto-controle da personagem ruir é a necessidade de enfrentar seus instintos reprimidos, sua sexualidade adormecida e destrutiva a fim de ser perfeita no balé; a personagem infantilizada ira destruir-se enquanto amadurece. Esse é o paradoxo de Nina: ela quer, mais que tudo, ser perfeita, mas só alcançará a perfeição se confrontar o que vem reprimindo [consciente e inconscientemente]; os instintos reprimidos, no entanto, só farão destruir Nina. Logo, não há espaço para a perfeição completa e para a integridade física e psicológica.

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Tendo isso em mente, Aronofsky põe a câmera a serviço da psiquê da personagem desde o primeiro momento do filme. Nota-se, desde o sonho até a primeira cena na qual Nina se vê no Outro [no metrô], o quanto a personagem é desestabilizada. A transformação psicológica da bailarina é levada à exaustão literal pelo cineasta, que não se furta a mostrar patas e pescoço de cisne. O jogo com espelhos, reflexos com atrasos na imagem, só acentuam a noção do Outro que parece estranho, mas que é o mesmo; Nina se enxerga na mãe repressora, na dançarina veterana e perfeita, na rival liberada que dança o cisne negro sem dificuldades. Nina só alcança sua própria perfeição quando, finalmente, enxerga não o[s] outro[s], mas a si mesma, sexualizada e não mais uma criança. A câmera do diretor é uma narradora que se entrega sem qualquer pudor e sem qualquer restrição a essa jornada psicológica.

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Conhecido diretor de atores [basta lembrar que conseguiu fazer Marlon Wayans atuar de forma intensa e interessante em Réquiem para um sonho], Aronofsky consegue um trabalho coeso de todo o elenco, sempre levando em conta a ótica da personagem principal. Ainda assim, ver Winona Ryder em cenas curtas, mas marcantes e necessárias para a compreensão da protagonista só é mais interessante ainda. Protagonista essa que é brilhantemente interpretada por Natalie Portman. Conhecida por sua estampa de menininha frágil, Portman aqui não só se revela uma escolha interessante por sua persona, mas pela capacidade de transitar entre emoções complexas enquanto dança. É durante os ensaios e apresentações que Portman de fato demonstra a natureza da personagem. Durante boa parte do filme, é até incômodo assistir os ensaios, pois a atriz surge sempre com o rosto tenso, obcecada com os movimentos. Posteriormente, quando assume seu lado cisne negro e finalmente encanta a todos, sua expressão é sedutora, segura de si. Quando finalmente alcança a perfeição e volta a dançar o cisne branco, há um relaxamento, uma pureza e uma espécie de resignação e redenção que simplesmente não havia anteriormente.

Assim, ainda que o filme seja um assombro do ponto de vista de todos os envolvidos [lembremo-nos de Clint Mansell, também, novamente esplendoroso na trilha], ao final, o que se tem é a certeza absoluta da capacidade do diretor Darren Aronokfsy em realizar narrativas extremamente complexas e que ficam na memória por um longo tempo.

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“I was perfect”

Cisne negro (Black swan – Darren Aronofsky, 2010) – *****

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