Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II
Em 2004, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban realizou um salto de qualidade na adaptação dos livros de J. K. Rowling para o cinema. Depois de dois filmes absolutamente risíveis, Alfonso Cuarón fez de Azkaban mais do que simplesmente uma transposição burra que prezava a fidelidade dos acontecimentos [como fazia Chris Columbus]; o trabalho de Cuarón revelou algo que estava de alguma forma escamoteado no texto de Rowling. Em Azkaban importa menos a noção de “aventuras em um mundo mágico” e mais o rito de passagem que essas aventuras representam. Nesse filme, Harry finalmente se porta – e é tratado – como alguém que passa da infância para a adolescência durante certos acontecimentos de sua vida.
Desde então, quatro outros filmes foram feitos. Somente no último, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II volta-se a trabalhar Harry Potter como aquilo que é: um personagem. Uma pessoa. O protagonista. Em Parte II o rito de passagem consiste da transposição da adolescência para o mundo adulto. O mundo cruel, no qual amigos morrem porque é da natureza da vida. O mundo da responsabilidade de abraçar suas escolhas e consequências.
Se a decisão de dividir o sétimo livro em dois filmes mostrou-se no mínimo equivocada por conta de Parte I ser arrastado e investir em personagens que foram deixados no nada em seis filmes anteriores, é justamente essa divisão que aumenta a qualidade de Parte II. O filme é relativo a cerca de 1/3 do livro de Rowling, que não se alonga tanto em batalhas, preferindo muito mais elucidar pontas soltas e explicar o funcionamento das Relíquias Mortais. David Yates e Steve Kloves [diretor e roteirista, respectivamente], por outro lado, passam rapidamente por essas explicações e se voltam mais para a ação destruidora [e, por isso, purificadora] de Hogwarts e, principalmente, para a postura de Harry ao aceitar suas escolhas, seu destino.
Livres do ritmo lento imposto no filme anterior, diretor e roteirista tratam de algo que transcende a simples aventura [como em Azkaban]. Harry Potter tem que aceitar a própria mortalidade – e é somente ao fazê-lo que a vitória sobre o Mal se torna possível. O tratamento dado tanto pela direção quanto pelo roteiro encaram essa aceitação como um amadurecimento necessário. Quando finalmente vê a verdade sobre Snape e a verdade sobre si mesmo, após um processo de reflexão sobre sua conexão com Voldemort, é que Harry aceita suas responsabilidades e percebe que por sua morte é que ocorre a destruição do mal, o que caracteriza um rito de passagem clássico. E se torna um alívio perceber que Daniel Radcliffe volta a ter confiança em si e no personagem e finalmente, depois de Azkaban, demonstra ser um ator e não apenas um declamador de falas.
No entanto, o filme ainda tem alguns problemas como o rejuvenescimento/evelhecimento dos atores e, principalmente, a inutilidade e mau gosto da sequência do “céu”. Yates e a equipe visual banham tudo de um branco que indiscerne quase que totalmente o cenário. Dumbledore surge como um deus cristão mal feito. O principal problema, aqui, é a inutilidade da cena. Se no livro Rowling se utilizava desse trecho para explicar paciente e explicitamente ao leitor, Yates e Kloves trazem a passagem apenas para que um personagem querido dê as caras.
Retomando feitiços, passagens, enquadramentos e personagens dos outros filmes [Aresto Momentum, a ponte que dá para uma parte da floresta, a escada da torre de astronomia, o campo de quadribol…] e com uma atuação linda de praticamente todo o elenco, Harry Potter e as relíquias mortais – Parte II encerra de forma digna, satisfatória e coesa uma série que se mostrou profundamente irregular.
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part II, David Yates – 2011) – ****
Pior rejuvenescimento/envelhecimento que vejo em anos. Parecia efeito de programa do Didi.
Acabei de escrever o meu texto sobre o filme, apesar de já ter visto há um tempão. Eu adorei. A série é irregular, mas fiquei feliz de não ter nenhum filme bomba no meio. E que delícia de elenco…
Eu também gostei muito. Ao contrário do que acontece em Lost, por exemplo [pego por conta do final de algo que durou muito tempo e pans], ao pensar no episódio final, só tenho mais vontade de ver tudo. E que delícia que é a trilha do Desplat.