Atividade Paranormal
Meu plano era pegar uma sessão de Atividade Paranormal 3 no cinema, para aproveitar os sustos. Para isso, consegui assistir aos dois primeiros filmes da série. E o plano foi por água abaixo por pura decepção. Duas produções de terror de baixíssima qualidade serviram de aviso. Atividade Paranormal 2 repete boa parte das inconsistências do anterior com um pouco menos de estupidez, então vou dar enfoque a Atividade Paranormal.
Casal começa a passar por eventos aparentemente sobrenaturais, arranja uma câmera para tentar desvendar o mistério e vê a situação se tornar cada vez mais macabra. E basta de “trama”. Na verdade, uma das únicas boas ideias da produção é que a mulher (Katie) já passou por experiências similares na infância, e em pouco tempo percebe que ela mesma, e não a casa, sofre com a presença de uma entidade invisível. Esse histórico, porém, não serve para preparar o terreno para o suspense. A falha – ou, poder-se-ia dizer, a omissão – parte de duas incompetências fundamentais: uma na proposta e outra na realização.
O ponto de partida pseudo-documental poderia render, mas sobra “pseudo” e falta “documental”. Particularmente desconcertante é a rejeição de Katie à filmagem do marido Micah, já que essa postura tenta não só estabelecer o ambiente doméstico como íntimo demais para a presença da câmera (um valor bastante natural por si só), como também reforçar que há uma realidade ali, e ela é anterior ao registro. Essa problematização dupla da câmera é tão insistente que acaba por solapar o realismo: importa menos a naturalidade dos atores do que a menção indireta a um dia-a-dia pré-existente, que se faz necessária demais.
A construção do clima, por sua vez, emperra na problemática caracterização da entidade. É perceptível que o diretor Oren Peli se inspirou em filmes que escondem suas criaturas, como Tubarão e Alien – O 8º Passageiro, mas passou por cima de um elemento simples – a ameaça. Se o grande-branco e o extraterrestre não demoram muito para comprovar o risco que representam aos personagens, o demônio aqui espera um tempo precioso para fazer algo minimamente ameaçador, opção que Peli provavelmente fez para não exagerar e assim delatar a natureza ficcional da obra. A ameaça invisível, então, não só se ausenta como figura, mas também como agente. Além disto, a claustrofobia da Nostromo e as profundezas turvas do mar inexistem, e o cenário doméstico não tem papel algum na atmosfera.
Uma referência clara aqui é O Enigma do Mal, outro roteiro sobre uma mulher que vira objeto de desejo de um ente sem forma. No filme de 82, porém, a violência das manifestações – ou seja, sua potência cinematográfica, incluindo aí a concepção e a execução das imagens – marca a perturbação em uma rotina. Já Atividade Paranormal não perturba em qualquer nível, pois não cria um ambiente estável nem consegue nele injetar instabilidade.
1 capetinha em 10.
(Paranormal Activity, 2007, EUA. Dir.: Oren Peli. 86 minutos.)

