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Contágio

Contágio me passou a impressão bastante específica de que eu acabara de ver um dos filmes que melhor trabalhou a narrativa dentro de uma proposta realista. Cientistas de fato elogiaram a produção de Steven Soderbergh pelo retrato fiel de operações científicas e procedimentais que seriam realizadas durante uma pandemia como a do vírus fictício MEV-1, mas a construção narrativa me parece o feito mais impressionante aqui.

Logo de início, é bom ressaltar: a exposição domina. É uma medida interessante, pois o roteiro trata de inúmeros procedimentos, eventos e campos da sociedade – dando enfoque aos americanos, claro -, e mais do que um guia para situar o espectador em tantos núcleos, os diálogos expositivos servem para pormenorizar a reação ao vírus, seja o impacto desastroso nos ânimos e na saúde da população mundial, seja a resposta das instituições à ameaça pandêmica. A associação do realismo com a exposição permite uma visão abrangente da situação através de instantes pontuais e ocasionalmente dramáticos. E aí está a principal força do filme: a capacidade de desenvolver dramas sem torná-los centrais nem secundarizar a proporção global do acontecimento. Posto que representar um desastre através de um grupo pequeno de personagens é uma eficiente alegoria do plano macro através do micro, em Contágio o movimento é oposto, pois sua abordagem é tão abrangente que cada pormenor dramatúrgico serve para difundir dados – sejam estes informações ou efeitos sociais e emocionais na espécie humana – sobre o quadro global.

Essa construção está presente em diálogos ou informações incidentais, como quando se descobre que o contingente de policiais está 25% menor, que os enfermeiros entraram em greve por conta dos riscos de trabalhar em uma situação descontrolada ou quando a filha do personagem de Matt Damon pergunta onde estão os bombeiros. São pequenas partículas de apocalipse espalhadas ao longo do filme que mostram a sensibilidade de Soderbergh: apesar de não ser o fim do mundo e de os números não serem superlativos (o número de mortes nunca é confirmado, mas chega às dezenas de milhões, número ínfimo em um filme-desastre), a tensão se constrói também nesses picos de caos. Conflitos costumeiros, como o pai afastando o namorado de sua filha ou o homem dando informações privilegiadas a um ente querido, são ambivalentes, pois carregam pathos e até mesmo ethos, mas ainda comunicam a paranoia doméstica e novidades sobre a pandemia.

A seleção de personagens também alimenta a visão sistemática do evento, pois o blogueiro polêmico vivido por Jude Law rompe a tensão com seu cinismo, mas personifica, em suas vorazes exposições, jogos de interesses empresariais e questões de uma população desconfiada. A música de Cliff Martinez talvez não seja a melhor escolha, já que lembra demais mais o realismo-mercadoria típico em Hollywood. É uma das poucas peças falhas do filme (assim como o posicionamento do Dia 1 no fim da projeção, um eficiente e por isso mesmo problemático choque moral), pois a pontualidade das subtramas e sua habilidosa articulação em um panorama mundial crível marca uma consciência rara perante a potência da narrativa realista.

(Contagion, EUA, 2011. Dir.: Steven Soderbergh. 106 minutos.)

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