Teeth – A Vagina Dentada
Mitchell Lichtenstein opõe, em Teeth – A Vagina Dentada, duas forças tremendas. A inocência da protagonista portadora do órgão-título, Dawn (Jess Weixler), torna a fúria do roteiro um feito inimaginável. Não há resquícios dos encontros mais comuns entre criatura afável e corrupção bruta: linda garota destruída pela maldade, alheia à maldade ou salva da maldade. Aqui, a linda garota se livra da opressão por conta própria, em uma proposta também já conhecida – especialmente em finais-surpresa de fitas de terror vagabundas. O grande diferencial é como a ingenuidade de Dawn resiste até o último minuto de projeção, mesmo depois de ter embarcado em uma vendeta contra o irmão. Aqueles segundos de hesitação e choque perante o idoso que lhe deu carona, quando tudo indicava que os homens já haviam sido entendidos como intrinsecamente vis, fazem toda a diferença.
Entre as semelhanças, a mais direta está em Possuída (Ginger Snaps, no original), que trazia uma adolescente às voltas com a puberdade e com a lenta transformação em uma fera licantropa. Sua derrocada à irracionalidade e seus desejos alterados, porém, relativizam a comparação. A protagonista do filme de Lichtenstein logo já está ciente do que pode fazer, e até o último momento passa pela incerteza de colocar seu mecanismo de defesa em prática ou não. É dessa forma que a obra consegue manter sua revolta sem que a personagem se encaixe nas fórmulas já citadas. Por mais que não saia decepando pênis intencionalmente, ela decepa pênis de qualquer maneira. Ela não está conscientemente no controle da situação, como uma menininha fofa que se revela para o espectador como um demônio sanguinário – outro paralelo pode ser traçado com MeninaMá.Com –, mas tem o poder para tal. O impacto psicológico e emocional em Dawn parece estar sempre presente, mesmo quando passa do absoluto horror (Tobey) para a quase fadiga de encarar um círculo vicioso (o velho no final).
O cineasta dialoga muito bem com os temas mais berrantes do horror. Basta perceber como a origem mitológica da “vagina dentata” ganha valor irônico com a música tribal que toca em determinadas sequências e nos gritos do ginecologista – que, vale dizer, carrega um sutil chauvinismo que quase todos os outros personagens masculinos apresentam sem meios-tons. A velha história da mutação gerada por produtos químicos ou radioativos é outro exemplo, limitando-se aos igualmente cômicos créditos iniciais, que ilustram bem a fórmula inocência versus ameaça, e às formas das usinas desenhadas contra o horizonte. Aliás, o constante flerte com o “terrir” mostra conhecimento do gênero e respeito a seus melhores exemplares. Ainda mais interessante é como a cena-de-apresentação serve não apenas para esse fim declarado, mas também para estender a tensão do encontro fatídico entre Dawn e o irmão.
Talvez o mais marcante em Teeth – A Vagina Dentada é como os extremos são trabalhados, não apenas no tocante ao roteiro mas à construção cênica de Lichtenstein. As cenas de decepamento são alongadas ao máximo, mas não falham em mostrar os falos e os tocos ensangüentados na virilha dos agressores. A disposição em passar de um extremo ao outro sem ignorar as gradações, da beatice à descoberta sexual e à represália anti-misógina, é o que mais marca o filme, um belíssimo exemplo de como um gênero pode ser reavivado com uma ótima idéia e uma dose equivalente de competência.
(Teeth, 2007, EUA. Dir.: Mitchell Lichtenstein. 94 minutos.)
