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Homem-Aranha: De Volta Ao Lar

LCeT - Spider-Man Homecoming

E se comentássemos Homem-Aranha: De Volta Ao Lar dentro de seus próprios princípios e temas de crescimento? E se acompanhássemos o desenvolvimento da franquia ao longo de suas iterações como fases de sua evolução? Pode ser um pouco disparatado equiparar as formas como filmes e personagens conjugam seus objetivos individuais, os sucessos e fracassos de suas ambições, as pressões externas e as lições aprendidas, mas a comparação leva a uma reflexão interessante sobre a trajetória que levou a mais esta etapa do super-herói nos cinemas e sobre os resultados finais dessa nova empreitada.

As analogias dão conta de processos de amadurecimento de certa forma bem parecidos. Nos momentos iniciais do fenômeno atual dos filmes de herói, o Homem-Aranha de Sam Raimi explodiu com espetáculo, inventividade e competência, equilibrando as expectativas do filme-pipoca com necessidades de narrativa e personagens. Com a continuação, que aperfeiçoa e expande o ótimo cinema elaborado até ali, chega o auge precoce dessa trajetória, o grande momento de triunfo cheio de promessa. É com o bombástico fracasso criativo de Homem-Aranha 3 que se desenham os limites daquela esperança, sinalizando um curto-circuito entre exigências e realizações, entre os sucessos alcançados antes e os insucessos causados por repetições desajeitadas e mudanças obtusas.

O baque leva a uma metamorfose desastrosa como O Espetacular Homem-Aranha, reboot que delata a incapacidade dos realizadores de entender quais elementos deram errado antes e por que, com decisões que, ao longo de um filme desprezível e uma continuação irregular, vão e vêm tentando a esmo achar uma linha firme e confiável a se seguir. Chegando a esse ponto tão desenganado, a necessidade de um novo rumo era forçosa, e uma mistura de transformações e readequações leva a uma situação curiosa nesse novo rebento: uma retomada um pouco mais experiente das qualidades que o personagem apresentou.

Esse relato cabe perfeitamente no formato de um filme coming-of-age, com sua jornada que se inicia com muitas perspectivas futuras, alcança um momento de êxtase, encara dificuldades e chega ao fundo do poço, para no fim emergir das intempéries com uma percepção mais clara de quais prioridades e vocações vêm de forma mais natural. E o arcabouço também é perfeitamente reproduzido na narrativa desse De Volta Ao Lar, tão próximo do modelo em questão que a menção deste já revelaria tanto quanto aqueles trailers tão tagarelas.

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Tagarela, aliás, é um bom adjetivo para definir o Homem-Aranha de Tom Holland, curiosamente muito próximo do que se viu em O Espetacular Homem-Aranha 2, que exibia o herói de forma muito mais confortável e humorística que seus predecessores. O que o ator não herda é a inadequação de Andrew Garfield no papel de adolescente: Holland indica um aprendizado em relação ao desastre anterior, já que foi escalação excelente para capturar a natureza juvenil de Peter Parker. Igualmente sábia foi a percepção de que o excesso de tramas e vilões não funciona na marra (visão que fez falta antes, especialmente no filme de 2014). Sempre que o filme acumula subtramas, esse acúmulo é raiz de conflitos, estabelecendo os impasses do protagonista de forma honesta e dando fluidez à narrativa.

Ainda mais acertada é a forma como a história de Parker é resetada. Pulando os já cansados pormenores de sua origem, o roteiro ainda assim busca os momentos mais iniciais e verdes de seu arco, de forma que nada falta ou sobra. O texto ainda de quebra fundamenta sua jornada de amadurecimento, seus conflitos e seus fracassos em um ideal pré-concebido, e desmesurado, de heroísmo – quase como se ironizasse as tramas grandiloquentes dos Vingadores. Entra aí a figura paterna de Tony Stark (Robert Downey Jr.), desenvolvida de forma surpreendente ao longo dos 6 filmes em que apareceu antes, e muito bem encaixada no dilema do herói novato embriagado com a promessa de alcançar um novo status.

Também entra para a conta das lições aprendidas o manuseio dos vilões, todos derivados de uma figura central bem estabelecida e elaborada com singeleza. Até a revelação sobre o personagem no terceiro ato, coincidência espetacular, serve para algo mais que avançar a trama: as interconexões aumentam o peso que Peter sente por seus atos, e justificam sua opção final de não dar passos mais longos que a perna em sua rotina de herói (além de desviarem da mesmice da donzela em perigo).

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O ponto mais importante é que o novo Homem-Aranha está longe de ser o ápice da franquia. Possui um número bem maior de equívocos e cacoetes que os dois primeiros filmes de Raimi: a história do Abutre (Michael Keaton, ótimo) tem várias semelhanças com a de Norman Osborne como Duende Verde; a montagem desastrosa do longa de 2012 volta como assombração, especialmente em sequências de ação como a luta no avião; e o diretor tem mais do que algumas inconsistências, seja no uso bizarro de planos fechados em cenas aleatórias, na má decupagem, de novo, das cenas de confronto, ou na noção ocasionalmente imprecisa dos espaços e dos enquadramentos. (O que não o impede de ter boas sacadas, como os movimentos de câmera semelhantes em duas cenas de revelação no quarto de Peter.)

Acontece que é exatamente sua condição de passatempo agradável, cauteloso mas bem resolvido, que permite a Homem-Aranha: De Volta Ao Lar mostrar o aprendizado dessa série de filmes. Por retornar ao básico, resgatando parte das origens de um icônico personagem, a nova versão aceita suas limitações, até mesmo por ainda conter suas falhas, e aceita reiniciar sua evolução sem desprezar seus predecessores. Relaxado, assim, sem a rebeldia ou as ilusões arrogantes que deveriam se limitar à personalidade de seu protagonista, o longa acaba leve, singelo e o mais importante, divertido.

(Spider-Man: Homecoming, EUA, 2017. Dir.: Jon Watts. 133 min.)

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