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Planeta dos Macacos: A Guerra

LCeT - War For the Planet of the Apes

Chega a ser difícil apontar o que é mais impressionante em Planeta dos Macacos: A Guerra. São tantos aspectos bem trabalhados na produção que todos merecem ao menos uma menção como parte do sucesso. Como o encerramento de uma trilogia boa – A Origem teve uma trama simples e eficaz, enquanto o formulaico O Confronto simplificou até demais apesar de um belo trabalho de direção -, o filme pesca pontos narrativos e temáticos importantes dos longas anteriores e os elabora com precisão na trajetória do chimpanzé Caesar (Andy Serkis).

O mais importante para se destacar de cara é que A Guerra é totalmente calcado em emoções e sentimentos, em gestos e ações, de forma a torná-lo quase minimalista. Não é só a questão de haver poucos diálogos ou sequências de ação – embora realmente seja o caso, em especial se comparado à seara habitual do cinema-pipoca dos EUA. O ponto é que, salvo algumas exceções, as falas de todos os personagens são emocionalmente carregadas. Por um lado, Caesar e os outros símios se comunicam geralmente por sinais, ou soltam poucas palavras carregadas de afeto ou pesar; por outro, os personagens que mais falam são humanos, sendo que, mesmo no longo solilóquio do Coronel (Woody Harrelson), repleto exposição, ele diz tudo através do filtro pessoal de suas experiências. Essa distinção, aliás, se encaminhar para uma bela reviravolta trágica para o vilão e para toda a raça humana.

Nesse contexto, é simbólico que a principal sequência de ação seja um embate entre humanos, e até mesmo que uma resolução providencial literalmente enterre o conflito – assim como em uns outros momentos, a saída narrativa simplifica demais a trama, mas a ideia da natureza ou de forças divinas reagindo à beligerância humana é tematicamente ressonante, assim como os contornos evolucionistas desse desfecho. Ademais, até mesmo cenas de batalha e momentos de suspense são construídos em cima de personagens e suas perspectivas. Grandes exemplos estão na revolta que Caesar instiga com um único grito – carregada com todo o peso de sua liderança até ali – ou no instante do clímax em que o movimento decisivo da peleja final é inibido e passa a depender de uma mudança sentimental de outro personagem – cena também toda interligada com os conflitos da condição símia naquele universo.

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Outro aspecto crucial no filme é o tom melancólico predominante, exibido inclusive nos primeiros minutos: após um confronto violento, os símios levam seus mortos e os deitam na correnteza de um rio, ao som de uma composição bela e triste de Michael Giacchino. Quase todo o roteiro é dominado pelas sombras da escravidão, da violência e da morte, ainda que os macacos estejam buscando um novo lugar para seguir suas vidas. Casado com o foco no cerne emotivo mais imediato das situações – e com uma direção atenta de Matt Reeves -, muitas das cenas mais dramáticas funcionam pelo simples baque da perda (a família da Caesar) e do sofrimento (a angústia do filho no campo de concentração). Também reverberam cenas de esperança e união, como o gesto de confiança dos seguidores do protagonista, ainda aprisionados.

Esses momentos de positividade são catalisados na personagem da garotinha Nova (Amiah Miller), cuja condição próxima à de um animal de estimação traz uma serenidade afetuosa à trama. Isso sem esquecer como pesa, naquele mundo em guerra, a aproximação entre o afável Maurice (Karin Konoval) e a menina – cristalizada num cuidadoso momento que alia os personagens, a trama e os irretocáveis efeitos visuais com maestria. E ainda mais notável é a função intrincada de Bad Ape (Steve Zahn), que surge de cara como um alívio cômico muito bem-vindo e orgânico. Porém, além de salpicar de leveza uma história bastante sorumbática, ele representa a resiliência de uma visão de mundo inocente e sensível – ainda que não totalmente ingênua – e sua presença carrega a esperança por uma comunidade que possa deixar de se apoiar apenas em guerreiros.

WAR FOR THE PLANET OF THE APES

No fim, a promessa de bons vaticínios para os símios faz uma ponte fantástica com o primeiro filme de 1968 e com a figura de Caesar. Em A Guerra, o personagem é mostrado sob uma forte simbologia religiosa, com ecos da jornada de Moisés e referências claras a Jesus – a crucificação, o ferimento no flanco, o sacrifício -, tão claras que chegam a incomodar. Porém, há de se considerar que o desfecho dessa trilogia é otimista, sinalizando para uma sociedade pacífica, em nada semelhante aos escravocratas que Charlton Heston enfrentou 50 anos atrás. Fica no ar, assim, um subtexto assombroso: seria o caso de Caesar ter se sacrificado em prol de seus semelhantes e sua mensagem de piedade e comunhão ter sido esquecida ou ignorada pelas próximas gerações, assim como o Cristo pregou a bondade e a solidariedade, e hoje em dia é usado como desculpa para opressões vis? É difícil dizer até que ponto os paralelos cristãos foram planejados, mas essa é uma metáfora que reverbera profundamente no filme, que, afinal, é sobre o eterno conflito da consciência, partida entre a vingança, o ódio, a violência, e o altruísmo, o afeto, a paz.

(War For the Planet of the Apes, EUA, 2017. Dir.: Matt Reeves. 140 min.)

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